segunda-feira, 10 de maio de 2010

A alegria que a bebê nos traz

Fazia tempo que eu não parava para escrever aqui. E muito mais ainda sobre essa pessoa. Por isso, resolvi voltar a organizar as palavras em favor de quem trouxe a alegria para toda a família. Como é bom acompanhar o crescimento da minha sobrinha, a Rafaela.

Dias atrás, dei uma repassada nas fotos desde seu nascimento até agora. Quase 15 meses se passaram e a evolução é perceptível. Agora, a pequena está na fase de aprender a falar e chamar a todos de casa pelo nome. No seu vocabulário, estão "papai", "mamãe", "vovó" e outras mais.

No caso dela, quando ela chama a "vovó", na verdade é a bisavó dela. Como todo mundo a chama de vó, a Rafaela aprendeu desta forma. Assim, o jeito foi improvisar. Para a avó direta, sobrou a possibilidade de ensinar a bebê a convocá-la pelo próprio nome dela: Léa. E a pequena aprendeu.

No meu caso, virei o tio maluco. Até agora, não entendo por que o povo se refere desta forma. Talvez pelo fato de brincar e agitá-la com muita bagunça. Quando todos perguntam quem é o tio maluco, a Rafaela corre e aponta para mim. O jeito é deixar.

Como é gostoso acompanhar essa evolução, ainda mais por parte de quem foi contemplado com a sua chegada. Afinal, ela trouxe alegria num momento em que mais precisava, quando me recuperava do acidente de carro. De fato, a felicidade agilizou todo o processo de reabilitação.

Escrevi tudo isso como um pretexto de trazer novas fotos da Rafaela. Na verdade, são as mais recentes, tiradas nessa semana. Fazia tempo que não saia com ela na imagem:



Nessa, ela se diverte com os adultos que resgatam o espírito de criança para alegrá-la:



E olha como a bebê fica feliz:



Por essas e outras que sempre agradeço pela chegada dela. Nesse período todo, a sinceridade de uma criança fez eu juntar os cacos com mais facilidade e esquecer a tristeza de muitas perdas e decepções. Desta forma, eu sempre repito. Foi um verdadeiro anjo da guarda que chegou.

domingo, 2 de maio de 2010

Trabalho no Dia do Trabalho

Não poderia ser diferente. Depois de ficar afastado do trabalho no ano passado em meio à data por causa do acidente, dificilmente eu escaparia mais uma vez do plantão. Não era o meu final de semana de trabalho na escala das equipes que se revezam aos sábados e domingos. Porém, o dia primeiro de maio caiu bem no sábado. Devido a esse motivo, fui convocado para reforçar os quadros da redação e cobrir as festas organizadas pelas centrais sindicais em comemoração a essa ocasião. O trocadilho cairá bem agora. Realmente foi muito trabalho no Dia do Trabalho.

Bom, eu não fui o único da equipe a ser chamado para atuar nas festividades da data. Outros três jornalistas da editoria de economia compareceram à convocação extra. Em três coberturas desta natureza, foi a terceira vez que a chefia me escalou para acompanhar o evento organizado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT).

A escolha delas foi bem interessante para mim. Afinal, a central sindical organizou um formato diferente para a Festa do Trabalhador, no Memorial da América Latina. Em vez daquele tradicional show com vários cantores, a entidade optou por priorizar o aspecto cultural. Promoveu como tema a união dos países latino americano. De quebra, houve apresentação de cantores, músicos e grupos de renome.

Apesar de estar a serviço, consegui assistir parte dos shows de artistas muito conhecidos e respeitados pelo público. Nesta relação, estão os cantores Carlinhos Brown, o maestro João Carlos Martins, o grupo Raíces de América, o cubano Fernando Ferrer e Milton Nascimento. Esse último, que bela voz. Tanto ele quanto os demais cantaram ao vivo, sem o tradicional playback. Quando conseguiria ser espectador de uma reunião de artistas como essa de graça?

Fora isso, talvez tenha ganhado dois ou três quilos só de passar várias vezes na feira gastronômica montada na área da festa. Cada vez que ia àquela direção, eu comprava as empanadas chilenas. Comi um monte delas. Até perdi a conta. O jeito é começar a semana com treinos mais intensos na natação e na musculação para perder todas as calorias delas. Mas estavam uma delícia. Ai que remorso!

Porém, nem tudo foi felicidade na cobertura dessa festa. A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à festa causou momentos de confusão. A equipe responsável pela segurança da autoridade máxima do país fez os jornalistas saírem por diversas vezes da área reservada exclusivamente para esses profissionais cobrirem o evento. Mesmo quem estava devidamente credenciado, como eu, se sujeitou ao forte aparato. Haja paciência. Os demais repórteres reclamaram muito sobre essa situação. Isso desgasta.

Por outro lado, a imprensa em geral estava bem atenta ao conteúdo do discurso do presidente. Afinal, estamos em ano eleitoral onde todos trabalham para eleger seus respectivos candidatos. Além disso, Lula tem o apoio de todas as centrais sindicais em favor da sua pré-candidata, Dilma Roussef. Fica feio se ele não aparecesse na festa. Desta forma, ele compareceu aos eventos de todas as centrais, numa verdadeira maratona em pleno Dia do Trabalho.

Na CUT, fez os habituais trocadilhos e as tradicionais metáforas contidas na sua fala. Como sempre, levou todos os espectadores aos risos. Disse que deveria tomar cuidado, pois o ego engorda e, por isso, precisaria até trocar as calças, numa brincadeira em relação à citação da revista americana Times, de que Lula é um dos homens mais influentes do mundo.

E também brincou com a situação de não mais pedir votos abertamente para Dilma nos eventos populares. "Dilma, eu não posso falar. A Justiça me proíbe fazer isso", destacou Lula. A estratégia foi adotada após uma enxurrada de representações encaminhadas pelos partidos de oposição, que alegam uso de poder político - a condição de presidente - em favor de uma concorrente. A atitude dele levou os sindicalistas ao delírio.

Mas as pessoas que compareceram a esse evento também presenciaram o momento de emoção do presidente. Ao falar sobre seu futuro depois de deixar a presidência, Lula chorou no palco ao se emocionar quando se referiu sobre sua sensação de dever cumprido. Mencionou sobre a futura possibilidade de poder agradecer a cada "companheiro" quando voltar a morar em São Bernardo do Campo após o final do segundo mandato. Como isso rendeu para os fotógrafos e cinegrafistas de plantão. Imagem do dia e talvez a da semana garantida.

Mas após o discurso do presidente no final do ato político da festa, o cerimonial organizou um esquema para Lula conceder uma entrevista coletiva. Puro jogo de cena. O presidente foi embora sem falar com a imprensa. Seria o excesso de emoção por conta do tom da sua fala? Acho que não, pois a mesma coisa aconteceu nos eventos das outras centrais sindicais. Poxa senhor presidente, a gente sempre prestigia o senhor. Bem que poderia ter dado uma palavra.

Outro ponto interessante foi o fato de o evento atrair pessoas de outros países. Na hora de entrevistar os espectadores para saber o que acharam da festa, vários deles vieram de fora, atraídos pelo aspecto cultural. Conversei com um engenheiro francês, com um apetitoso prato de comida típica. Só esqueci de perguntar qual tinha sido sua escolha.

Além disso, abordei duas estudantes americanas, que dançavam de forma muito animada ao som da típica musica cubana, cantada por Fernando Ferrer. E ainda, encontrei uma brasileira descendente de chilenos no evento. Muito legal, pois nunca havia passado por uma experiência como essa nas coberturas da Festa do Trabalhador.

Assim, o trabalho em pleno Dia do Trabalho voltou a trazer o espírito de dever cumprido porque abordei aspectos diferentes ocorridos no evento de uma só vez. Só espero ter alcançado o objetivo de transmitir com precisão todos os passos do que presenciei. E aqui eu arremato com os bastidores, dificilmente mostrados nos jornais. Agora sim, a cobertura está totalmente completa.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

A Capital do Poder cinquentona

Aproveitei o feriado desse 21 de abril para descansar um pouco. Afinal, a folga foi concedida a um custo, claro. Trata-se de uma compensação porque vou trabalhar em 1º de maio, no Dia do Trabalhador, na cobertura jornalística das festas organizadas pelas centrais sindicais. Sempre é bom ficar de bobeira. Em meio a ociosidade, veio uma brilhante ideia. Além de comemorarmos a data que marcou a morte de Tiradentes, hoje a nossa Capital do Poder completa 50 anos.

Em meio a essas festividades lembradas pelas emissoras de TV e nos jornais, eu decidi. Por que não homenagear essa cidade tão ímpar e única em tudo? Por conta do noticiário, relembrei dos momentos passados em Brasília no mês de setembro de 2009, quando participei de um congresso organizado pela Federação Nacional da Distribuição dos Veículos Automotores (Fenabrave), a entidade que representa as revendedoras de carros.

Afinal de contas, a cidade é bem diferente do conceito que eu conhecia até então. Já ouvi falar dessa particularidade, mas a gente só entende quando se presencia pessoalmente. Nada funciona igual as outras metrópoles, como São Paulo por exemplo. Uma coisa que eu notei foi a ausência de semáforos nas ruas. Além disso, tudo é organizado em quadras.

Essa vivência gerou uma série de histórias no blog, desde os fatos pessoais até como entender Brasília (quem quiser detalhes de como a cidade funciona, pode clicar aqui). Foi uma experiência muito interessante. Vale a pena conferir.

Para não ser repetitivo, a minha homenagem à Capital do Poder ficará com algumas fotos que não publiquei antes, feitas durante essa viagem. Elas não ficaram legais, mas talvez vale a intenção de fazer essa lembrança. Optei pelas imagens noturnas para mostrar como Brasília mostra sua imponência de autoridade mesmo à noite.

Apesar da politicagem dos bastidores, o Congresso Nacional foi palco de muitas decisões importantes, desde a primeira eleição indireta após a Ditadura Militar, a nossa última Constituinte e a posse dos presidentes eleitos na fase ainda conhecida como Nova República:



Aproveitei para sair bem na fita, digo na foto:



A Catedral também fica bela à noite:




Essa foto já foi publicada, mas vale a pena repeti-la porque celebrou um importante encontro. Posei ao lado do saudoso presidente Juscelino Kubitschek e sua esposa Sara:



E quem quiser conferir a minha saga lá na Capital do Poder é só acessar essas histórias contadas em sete episódios: A Volta para Casa, Perdido em Brasília, Uma Badalada Noite, Como um Simples Turista, Descontração e Solidariedade, As Últimas Horas em Brasília e Entenda Brasília. Vale a pena passar por pelo menos uma dessas histórias. E parabéns Brasília pelos seus 50 anos.

sábado, 17 de abril de 2010

Uma ilustre ausência

Cada comemoração de aniversário sempre é diferente da outra. Já festejei a data em encontros simples com amigos, reunião de família e até mesmo no motel ao lado de uma ex-namorada. Já no ano passado, foi a primeira vez que contei com a presença da Rafaela, a minha sobrinha, quando ela ainda tinha quase dois meses. Como não podia deixar de ser, a lembrança dos meus 34 anos teve um novo elemento. Não citarei quem se lembrou do dia em que nasci ou compareceu a uma festa organizada por jornalistas da redação onde trabalho. Nesta oportunidade, ressaltaremos uma ilustre ausência nesse evento.

Agora todos devem perguntar por que eu resolvi destacar uma pessoa que não compareceu? A questão tem uma nobre justificativa. Esse convidado é, nada mais nada menos, uma personalidade bastante conhecida entre a população. Calma, muita tranquilidade. Não contarei agora a identidade dessa pessoa para manter a atenção de quem lê agora o texto.

Então, vamos aos fatos. Eu e o amigo e colega de redação Juca Guimarães decidimos organizar uma festa com as presenças de jornalistas de onde trabalhamos e de outras empresas. O motivo era para fazer uma apresentação musical, pois o Juca é um exímio músico na companhia do seu inseparável trompete. Então, o jeito foi convidar os jornalistas de vários locais, entre jornais, emissoras de TV e assessorias de imprensa.

É a pura verdade, mas só me dei conta de que a data escolhida para o grandioso evento era um dia depois do meu aniversário uma semana antes da festa. Desta forma, unimos o útil ao agradável. Fazer esse show entre amigos e, em segundo plano, comemorar as minhas 34 primaveras. Deu certo.

Para isso, Juca chamou outros músicos. Por outro lado, coube a mim divulgar e convidar os jornalistas para ir à lendária Gruta. O espaço é um bar situado no subsolo de um prédio comercial ao lado da sede do jornal. Não contente, o meu colega instrumentista gostaria de ter a presença de um político bastante conhecido no país. Trata-se do senador Eduardo Suplicy (PT-SP).

Para explicar a tamanha vontade de convidar o parlamentar, Juca falou que o senador costuma prestigiar os eventos na qual ele é chamado quando está na capital paulista. Ainda tentei questionar se ele queria isso mesmo. A resposta dele foi positiva. Assim, precisei telefonar para o celular do Suplicy e fazer o convite que pedia o comparecimento dele no grande evento.

Nas duas ligações que fiz, o senador não atendeu. Por esse motivo, deixei recados. Na última ligação, expliquei o objetivo do telefonema gravado na caixa postal. Pensei que minha missão havia sido cumprida, porém sem alcançar a meta desejada.

Pode parecer brincadeira, mas na mesma tarde recebi um telefonema restrito no celular duas horas depois. Pensei ser alguém do jornal ou alguma empresa que gostaria de falar comigo. Mas não era para minha surpresa. Inesperadamente, o senador estava do outro lado da linha. Perguntou se eu havia ligado e respondi que sim.

Com isso, Suplicy quis saber mais detalhes da festa. Imediatamente, expliquei como o evento seria promovido, o local e tudo mais. Em seguida, o parlamentar logo me agradeceu. "Estou muito lisonjeado pelo convite, mas infelizmente não poderei comparecer", disse. Já imaginava isso.

No entanto, a coisa começou a mudar de figura na hora que o parlamentar informou os motivos para recusar o convite. Ele estava em Montreal, no Canadá, para participar de uma palestra sobre o seu projeto de renda mínima. Que chique, hein. Foi representar o Senado brasileiro na festa. Ou seja, ele retornou a uma ligação do outro lado do hemisfério. Caramba!

Por essas e outras, eu agradeci de coração pelo retorno da ligação. Afinal, não são todos os parlamentares que dão alguma satisfação. Ainda mais quando se encontra no exterior. No entanto, essa história sobre o convite ganhou muita repercussão entre os jornalistas presentes na festa.

Fizemos questão de contar quem a organização convidou para a ocasião. Muitos não acreditaram. Outros ficaram surpresos com a tamanha ousadia ao chamar uma autoridade. É fato verídico, viu.

Mesmo com essa ilustre ausência, a festa foi um sucesso. Muitas pessoas legais que considero muito compareceram ao evento. Já o Juca e os músicos convidados também ficaram felizes porque se apresentaram e o povo pediu aquele tradicional bis. Compareceram desde chefia, profissionais de outros veículos de comunicação e até parentes.

Devido à repercussão, vamos preparar um novo evento deste tipo para os próximos meses. Desta vez, a ideia é aumentar o número de convidados. E quem sabe o Suplicy não aparece? Afinal, vamos chamá-lo novamente, com toda a certeza do mundo, pois ele falou que compareceria se fosse contactado outra vez. Até a próxima.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Até mais, tio Cleycir

Poxa tio Cleycir, justo quando eu tinha uma festa para ir e em meio a um feriado prolongado? Até pensei ser uma brincadeira bem típica dele durante o 1º de abril, data em que se comemora o Dia da Mentira. Mas infelizmente era pura verdade. Por causa da ocasião, demorei para acreditar. Apesar de ser difícil pela ocasião, preferi adotar esse clima descontraído típico da sua pessoa para contar algo triste. Ele deixou o nosso mundo na última quinta-feira (01-04), depois de uma luta de dois anos contra um câncer.

Parece piada, mas o tio Cley resolveu partir bem nessa data. Talvez queria pregar uma peça para toda família dar risada. Brincadeira de mal gosto, hein! Não achei graça. Mesmo triste, procuro manter a irreverência contida nele deixada em todos nós como um legado para deixar uma simples homenagem. Essa é forma que mais consigo me expressar.

Após receber a notícia pela minha mãe enquanto comemorava a folga no feriado com amigos, aquele tradicional filme com as tradicionais recordações voltou a rodar na minha cabeça. E passou muito enquanto voltava de São Paulo para Suzano. Como não se lembrar das traquinagens que ele fazia desde a minha infância? A convivência era muito próxima, nos aniversários e encontros familiares naquelas datas típicas, como Páscoa, Dia das Mães e Natal.

Afinal, ele era um dos tios que me virava de cabeça para baixo quando criança. Além disso, tirava o maior barato quando chorava devido a uma bronca ou coisa parecida. Ele e o irmão dele, o tio Ignácio, chegavam ao ponto de tirar fotos minhas bem na hora dessas lágrimas. Trinta anos depois, agora eu definitivamente acho engraçado. Assim, vou manter parte dessas ações com a minha sobrinha, a Rafaela.

O tio Cley me deu minha primeira calculadora ainda pequeno, da então conhecida marca Dismac. Era um pedido meu influenciado pelas propagandas de TV daquela época. Depois de adulto, eu cheguei até a pensar numa possibilidade. Seria um sinal de que me tornaria mais tarde um jornalista na área de economia? Talvez, a resposta seja sim.

Por outro lado, foi por influência dele que passei a ouvir rock n' roll quando ia ao apartamento dele, no andar de baixo onde minha avó morava e passava grande parte do dia. Pelo menos, absorvi isso e continuo a curtir até hoje esse eterno ritmo.

Já na fase adulta, também compartilhava a arte de beber uma boa cachaça brasileira. Devido a esse fato, eu combato veementemente o preconceito contra essa bebida genuinamente nacional. Boa parte da minha coleção de aguardentes veio por meio de presente que ele me deu.

Como também levava garrafões adquiridos diretamente dos alambiques do interior do estado, de vez em quando ele retribuia a gentileza. E agora, com quem vou comentar se uma determinada marca é boa ou não?

Mesmo assim, acredito na possibilidade desse tio estar numa condição bem melhor agora porque não é fácil para ninguém lutar contra um câncer por muito tempo. Pois sei que essa doença maldita consome uma pessoa de tal forma, a ponto de ter perdido um outro tio e alguns amigos por conta desse mal. Apesar de já esperado, a tristeza foi inevitável dentro da família.

Bom, por essas e outras eu prefiro ficar com os bons tempos em vez de relembrar esses últimos dois anos de dificuldades para enfrentar a doença. Não garanto nada que ele tenha escolhido para morrer bem no dia 1º de abril como uma maneira de tornar a situação engraçada.

Só pode ser isso. Enquanto o povo aqui na Terra chorava, é bem provável que ele tenha dado muita risada da cara de todos nós lá de cima. Bom, o jeito é manter o sorriso e dizer até mais tio Cleycir.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Uma aventura em Florianópolis

Decidi fazer uma viagem no tempo. Quem quiser embarcar nessa jornada, voltarei para o dia 11 de setembro de 2001. O motivo de escolher a data não foi o fato desse mesmo dia ter ocorrido os históricos e devastadores ataques terroristas às torres gêmeas do World Trade Center, nos Estados Unidos. Aliás, esse acontecimento marcante também deixou todos apreensivos, inclusive os jornalistas de vários cantos do mundo. A tragédia ocorreu justamente no dia em que partiria em direção a Florianópolis, em Santa Catarina.

Esta seria a minha primeira longa incursão de carro. Curtiria as férias após o primeiro ano de árduo trabalho no jornal ValeParaibano, de São José dos Campos. Para essa aventura, contaria com as companhias do grande amigo Aurélio Moreira e Pedro Ivo Prates. Naquela época, nós trabalhávamos juntos nesse matutino. A viagem já tinha sido planeada três meses antes.

Desse trio, apenas Pedro Ivo continua no ValeParaibano. Hoje, ele é editor de fotografia. Já Aurélio está na assessoria de imprensa da Prefeitura de São José dos Campos. Bom, retornarei no tempo. Tudo estava programado para o grupo sair cedo. No entanto, a curiosidade jornalística falou mais alto. O jeito foi adiar a saída por algumas horas como forma de acompanhar o noticiário.

Bom, decidimos sair em direção ao nosso destino escolhido. Para essa grande viagem, contamos com o enorme apoio do seu Mário, o pai do Aurélio. Afinal, ele emprestou o carro usado nessa jornada, um confortável Vectra azul. Os gastos com combustível e possíveis danos ficaram sob nossa inteira responsabilidade. Era o mínimo que poderíamos fazer.

Começamos a nossa caminhada de 805 quilômetros que separavam São José dos Campos de Florianópolis. O percurso seria dividido entre Aurélio e eu. O Pedro Ivo só iria de carona por não ter tanta experiência no volante. A primeira e a parte mais desgastante do percurso ficou por conta do Aurélio.

Ele simplesmente pegou o pior trajeto. Conduziu o Vectra na Dutra, enfrentou congestionamentos na Marginal do Tietê e em outras ruas da capital. De quebra, guiou todo o trecho da temida Regis Bittencourt. Foi difícil. Para mim, restou o trecho entre Curitiba e Florianópolis, cuja pista era mais conservada. No entanto, enfrentei sozinho a noite e madrugada, já que os dois dormiram.

Na capital paranaense, resolvemos fazer a única pausa para descansar e nos alimentar. Escolhemos uma churrascaria muito boa. Comemos muito. Também fizemos amizade com a gerência a ponto de garantir o nosso retorno quando a gente tivesse no caminho de volta para casa. E cumprimos a nossa promessa.

Mesmo ofuscada pelos ataques terroristas, nossa viagem de carro foi emocionante. Nos cansamos muito. Enfrentamos congestionamentos, tempo ruim e até frio no trecho próximo à divisa entre São Paulo e Paraná. Foi o preço que pagamos para ter a nossa independência de locomoção na capital catarinense. Valeu a pena.

Além disso, as companhias de Aurélio e Pedro Ivo arremataram o clima de alegria nessa nossa aventura. Para resistir ao cansaço, tomamos todas as medidas possíveis e impossíveis. Eu bebi muito café para me manter acordado.

Já o Aurélio escolheu cuidadosamente na internet, as trilhas sonoras que iriam nos incentivar a seguir viagem. Para a ocasião, ele selecionou músicas das bandas Limp Bizkit e a até então desconhecida Linkin Park entre os brasileiros.

Ao chegarmos a Florianópolis, comemoramos muito. Era de madrugada e a partir de então vi como esse município é realmente lindo. A incursão serviu ainda mais para estreitar a amizade com os dois companheiros a bordo. Ainda bem.

Para mostrar ainda mais e relembrar esse momento histórico, trouxe as músicas que tocavam no carro durante essa viagem. Vale a pena ver o filme. As trilhas sonoras refletem o espírito de aventura que tomou conta de todos nós. Tenho muitas saudades desses tempos.

quarta-feira, 24 de março de 2010

A descoberta de um leitor

Como sempre, acordei bem cedo para ir à academia e fazer o habitual treino. No entanto, algo chato aconteceu para começar o dia mal. Não conseguia ligar o carro. Tentei algumas vezes, mas nada certo. Então, o jeito foi buscar ajuda. Meu pai foi buscar uma outra bateria num mecânico amigo da família para o veículo funcionar.

A missão teve êxito. Conseguimos ligar o automóvel e fazer uma espécie de troca. Tiramos a bateria emprestada com o carro em funcionamento e colocamos a outra com problema. Esse procedimento fez com que essa última se carregasse momentaneamente. Assim, fui devolver o material emprestado ao amigo.

Em seguida, fui imediatamente levar o carro para avaliar a necessidade de colocar ou não uma bateria nova, já que a colocada no veículo estava ruim. Fui a uma loja especializada nesse artigo aqui em Suzano logo ainda pela manhã. Para isso, precisei sacrificar parte do meu treino diário.

Ao chegar ao estabelecimento, pedi para analisar a bateria do veículo. E o diagnóstico foi dentro do previsto. Precisava fazer a troca por uma nova. Desta forma, autorizei o serviço.

Mas toda a situação de transtorno começou a dar aquela reviravolta quando eu vi que havia um jornal no balcão. Pedi permissão para pegá-lo e ler a edição do dia. A partir daí, percebi se tratar do matutino onde trabalho. Aproveitei para analisar o conteúdo desse dia.

Por esse motivo, eu não me contive e perguntei ao dono da loja se ele comprava todo dia esse jornal. A resposta foi positiva. Em seguida, fiz algo conforme minha consciência determinou naquela hora. Agradeci o rapaz pela preferência dele pelo jornal.

Com isso, ele imediatamente questionou se trabalhava nesse matutino. Disse que sim. A fisionomia dele era de tamanho espanto e felicidade.

O motivo foi o fato dele nunca esperar um profissional do jornal que ele sempre compra no seu estabelecimento. Foram várias perguntas e me tornei um entrevistado. Numa delas, o rapaz queria saber qual reportagem havia feito. Mostrei a manchete da capa.

Além disso, percebi que em muitos casos o jornalista ganha a condição de um ser inacessível junto à população. Na verdade, chega a ser tratado como uma celebridade. Prova disso, o proprietário queria saber se costumava fazer coisas habituais do dia-a-dia e por que morava em Suzano.

Entre as minhas respostas, falei que eu era uma pessoa igual a todo mundo e faço diariamente tudo dentro de uma rotina normal, como ir a um supermercado, frequentar um shopping center e tudo mais. Foi o tempo suficiente para o rapaz terminar o serviço no carro, que custou R$ 185.

Ao pagar pelo trabalho, agradeci pelo serviço e também por comprar sempre o jornal onde trabalho. A reação dele foi recíproca. Fui embora mais contente, pois ter esse contato direto com o leitor me faz crescer profissionalmente. Afinal, os espectadores são nosso principal termômetro para saber se nosso serviço tem repercussão.

Pelo menos, penso assim. Além das fontes (informantes), eles precisam receber tratamento digno como parte do meu grande patrimônio profissional. Depois disso, até esqueci dos fatos desagradáveis ocorridos no início do dia.

domingo, 21 de março de 2010

De olho nas próximas eleições

Mais uma vez, o jornal me escalou na última quarta-feira (17-03) para mais uma cobertura no Palácio dos Bandeirantes. Desta vez, a justificativa para o evento foi o lançamento de mais 60 mil vagas para um curso de capacitação do governo do estado, destinado a desempregados carentes. Quem participa das aulas também recebe uma ajuda de custo de R$ 210. No entanto, percebi no ar um clima, digamos, de festa muito além da conta.

Aí, caiu a ficha (ainda sou dos tempos dos antigos orelhões do Sistema Telebrás). Afinal, estamos a menos de um mês dos anúncios oficiais de candidaturas e da desincompatibilização dos cargos por parte dos interessados em concorrer as próxima eleições. Claro, a grande solenidade tinha justificativa. Por esse motivo, todos os veículos de comunicação estavam lá, inclusive eu.

No meu caso, o assunto pautado era realmente sobre os cursos, pois fui o primeiro a dar essa notícia com exclusividade. No entanto, o espírito de repórter que ainda sobrou em mim foi responsável por afinar a sintonia. Além do assunto em questão no evento, comecei a prestar mais atenção no ambiente e nos bastidores.

Como sempre ocorre, a solenidade de anúncio começou com atraso de uma hora. Desta vez, algo mais além: sem a presença do governador de São Paulo, José Serra (PSDB), que chegou atrasado no próprio local de trabalho. Ao ver a bancada completa, meu raciocínio trabalhou rapidamente.

Mesmo sem anúncios oficiais até então, a chapa para disputar as próximas eleições estava quase completa: Serra, o secretário de Desenvolvimento e ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o secretário de Emprego e Relações do Trabalho, Guilherme Afif Domingos (DEM). Respectivamente, pré-candidatos a presidente, a governador e vice-governador. Aliás, há muito tempo eu não os via juntos, um do lado do outro. Foi inevitável não pensar assim.

Agora, explico os motivos. Em relação ao Serra, não preciso apresentar muitos motivos pois ele já assumiu como governador com esse interesse de disputar para comandar o outro Palácio, o do Planalto. No caso de Alckmin, as pesquisas internas feitas a pedido do PSDB apontam o ex-governador como favorito a voltar a comando do Palácio dos Bandeirantes. Além disso, o partido não vai se arriscar a perder o comando do estado mais importante da Federação, tanto no contexto político quanto econômico.

Já Afif deve mesmo sair como vice eventualmente como Alckmin porque precisou abrir mão da candidatura a senador em favor do também ex-governador Orestes Quércia (PMDB). Nesse caso, o motivo foi o acordo articulado por Serra e fechado em 2008 para garantir apoio do PMDB em favor do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM).

Desta forma, sobrou para Afif a vaga de candidato a vice. Por enquanto, tudo está desenhado assim. Mas como a política também é uma caixinha de surpresas, tudo pode mudar.

De volta ao evento, o jeito foi também ficar atento a esse ambiente todo. Na plateia, muitas autoridades, deputados aliados e a gente de olho em tudo. Apesar de ficar no foco das vagas dos cursos que é assunto da minha editoria, de economia, também me transformei num esporádico repórter de política (na minha opinião, minha segunda área de atuação).

Na entrevista coletiva com o governador, perguntei sobre os cursos, obviamente. Em seguida, uma outra repórter questionou quando Serra assumiria a condição de pré-candidato. Como acontece até agora, ele desconversou. Foi a minha hora de testar se conseguiria atuar nas eleições, ao abordá-lo sobre o crescimento da pré-candidata e ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, nas pesquisas de opinião pública.

A última consulta feita pelo Ibope a pedido da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontou que a concorrente governista cresceu cinco pontos percentuais e estava com 30% das intenções. Serra contava com 35% na mesma análise. Então, o governador disse que não costuma comentar pesquisas, mesmo quando o resultado seja favorável. Depois, foi embora.

Já Afif confirmou que deixará a secretaria no início de abril para sair candidato, em entrevista depois da solenidade. Porém, não adiantou para qual cargo. Nos bastidores, é dada como certa a candidatura dele a vice-governador, dentro do acordo fechado. Alckmin nada falou no evento. Só faltou saber quem será o vice de Serra. Mas isso só ocorrerá nos próximos dias.

Entre essas e outras, percebi que o contexto todo do evento serviu para eu aquecer as turbinas, caso fique na cobertura das eleições. Além disso, deixou em mim a vontade ainda maior de atuar nessa corrida eleitoral. Afinal, a disputa promete muitas surpresas. O jeito é esperar para ver quais serão as cenas do próximo capítulo.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Sensação de dever cumprido

Entrei mais cedo por ter sido escalado para cobrir, mais uma vez, a visita do ministro do Trabalho a São Paulo. Como manda o figurino, acompanhei todos os passos do evento que contou com a presença de Carlos Lupi. Era um anúncio importante, pois o governo federal mostrava o novo sistema de prorrogação do contrato temporário para mais seis meses, a ser usado pelas empresas. A meta desse mecanismo é reduzir o tempo de espera para apenas dois dias, contra os 45 hoje.

Então, o jeito foi assistir ao evento todo, afinal as autoridades só concedem a tradicional entrevista coletiva após o término dessas atividades. O ministro discursou ao público presente e os representantes das entidades que representam os empresários e empregados também fizeram o mesmo. Sempre é assim.

Fora o assunto do evento, eu tinha outros tópicos para abordar com Lupi. Trata-se da luta para conseguir uma boa reportagem e ir mais além do que era abordado naquele ambiente, um almoço organizado no Circolo Italiano, na capital paulista. Porém, não precisei fazer muito esforço por um único e simples motivo. Uma reportagem feita por mim um dia antes repercutiu junto ao ministro.

Isso mesmo. Minutos antes da entrevista coletiva, um grupo de motoboys foi cobrar a liberação do financiamento especial destinado à categoria. A linha de crédito especial criada para o setor não tinha saído do papel devido a um impasse na Caixa Econômica Federal, responsável pela operação desse sistema. O banco tem dificuldades de encontrar uma empresa disposta a fazer o seguro das motocicletas vendidas, sob alegação dessa profissão ser de alto risco.

Pois bem, todo esse imbróglio foi relatada numa matéria que fiz. Os diretores do Sindicato dos Motoboys entregaram o jornal com a minha reportagem diretamente ao ministro. Ou seja, tinha mais um assunto para perguntar a Lupi, que abriu a página e leu o texto. Desta forma, meu objetivo de o fato repercutir amplamente foi alcançado.

Assim, me restou perguntar a Lupi que ele poderia fazer para resolver o caso. Questionado, prometeu cobrar agilidade junto à Caixa Econômica Federal para resolver o problema. Além disso, revelou a existência de uma negociação para criar um fundo especial, responsável por captar recursos como forma de garantir o seguro das motocicletas compradas por meio desse crédito.

Ainda no meio da entrevista, o ministro me perguntou: "Essa reportagem é sua?" Imediatamente, respondi positivamente. Em seguida, Lupi ressaltou que faria uma leitura mais minuciosa dentro do avião. Só não sei se ele realmente fez isso ou apenas se tratava daquela tradicional média. Jamais saberei a resposta.

Mesmo assim, eu fiquei contente com a reação dele e a forma que a minha reportagem chamou a atenção no segmento e no governo. Presenciei pessoalmente a meta principal dos profissionais da minha área, a de repercutir uma descoberta junto à sociedade e às autoridades. A minha sensação foi de pleno dever cumprido.

Afinal, isso permanece no bom e velho manual de jornalismo. Mostrar um problema, relatar todos os seus passos e, se possível, contar o resultado das nossas constantes cobranças. Pelo menos, ainda continuo no aspecto verdade, sem criar ou ser totalmente sensacionalista.

Depois de 16 anos de caminhada nesse ramo, às vezes, ainda sinto orgulho quando faço um trabalho bem feito. Ainda acho que seguir os meus princípios é o meu melhor caminho, mesmo nos momentos de sensação de nadar contra a maré. É sinal de não deixar me influenciar e manter o meu caráter dentro dessa profissão. Ainda bem.

terça-feira, 2 de março de 2010

Uma emocionada despedida

Mudanças num determinado veículo de comunicação sempre trazem aquela tradicional movimentação de profissionais. E, obviamente, isso acontece hoje no Diário de São Paulo, onde um novo proprietário assumiu desde dezembro passado. Alguns chegam para melhorar a qualidade do conteúdo. Outros vão embora ou por não terem se adaptado às modificações ou porque encontraram novas oportunidades. Afinal, sempre será desta forma.

E isso aconteceu mais recentemente com três profissionais da casa: Isabela Barros, Aiuri Rebello e Plínio Delphino. Os três partiram para novos horizontes, numa agência de notícias, numa viagem à Europa e no SBT, respectivamente. Esse é o caminho natural da nossa profissão.

Sem querer desmerecer os demais, um deles com certeza representa parte da história mais recente do matutino, desde os tempos do velho Diário Popular. Ele se chama Plínio Delphino. Esse excelente repórter policial passou treze anos de sua vida na redação, desde os tempos de um simples estagiário.

Foi justamente nessa época que o conheci, em 1996, quando o mesmo me telefonava para ajudá-lo na apuração das constantes rebeliões na Cadeia Pública de Mogi das Cruzes. Naquele tempo, também dava meus primeiros passos na minha região, na Rádio Metropolitana.

Como a internet e o celular ainda eram artigos de luxo, o jeito era se virar por meio de contatos telefônicos. O Plinião, como também é conhecido, me ligava no orelhão próximo à cadeia e vice-versa. No último caso, fazia isso até por meio do então recente cartão telefônico.

O tempo passou e onze anos mais tarde o encontrei na própria redação do Diário de São Paulo. Por três anos, convivi com esse grande e respeitado profissional. Sinto-me honrado em colaborar, mesmo que timidamente, com a sua trajetória quando ainda cobria um pouco os fatos policiais.

Mas o que me chamou a atenção na sua despedida foi a carta deixada aos demais companheiros da redação, via e-mail. É muito difícil não se emocionar (eu me emocionei a ponto da voz ficar embargada). Quem se diz jornalista com certeza deve ter se solidarizado com o conteúdo. Já a pessoa que ainda não leu, vale a pena desfrutar desse emaranhado de palavras de gratidão.

Por esse motivo, decidi publicar na íntegra a carta deixada pelo Plinião como a minha simples homenagem a quem se dedicou de coração e já tem um capítulo na história desse centenário matutino. Coloquei isso com autorização do seu autor, claro.

Aiuri e Isabela, da próxima vez prometo voltar com uma postagem mais equilibrada com esse trio que deixou o jornal. Com todo o perdão, mas não tinha como deixar essa carta do Plinião passar em branco:

"Outubro de 96. Lá estava eu, diante do prédio do DIÁRIO POPULAR, como uma criança olhando para o pai, de baixo pra cima. Olhar de quem está curioso, de quem precisa de espelho para aprender e seguir a vida adulta. Na portaria me mandaram para as alturas. O quinto andar. A famosa redação do Dipo. E pra chegar lá, sempre havia um ascensorista cheio de história ou de manias no nosso caminho. Seo Paulo barrava até diretor se o elevador estivesse cheio. O São-Paulino, que colava o rosto na parede, lustrava o painel do aparelho a cada segundo e nunca terminava um assunto, porque o andar chegava antes do epílogo. O Daniel da madrugada, trabalhava com um guarda-chuva gigante à mão. Personagens únicos de um lugar ímpar.

Motoristas crentes, malucos, parceiros, corretos, nem tanto, pulsavam nas ruas com a gente até na contramão. Fotógrafos queriam engolir o mundo em imagens. E a gente enchendo a página de histórias pra lá de saborosas, inéditas, sensacionais. Telefones latejantes irritavam a redação o dia inteiro. Era nervoso, contagiante. Cresci aqui, nessa aura romântica, sem internet ou celular, em tempo que o bloquinho era prova irrefutável de que teu trabalho foi árduo. A gráfica ficava no prédio da redação. À noite, a gente saía e o jornal já estava sendo encartado na rua movimentada. Uma fila de Kombi aguardava para levar ao leitor a edição, em preto e branco, que sujava a roupa, as mãos, mas valia cada centavo do leitor.

O DIPO envelheceu e então chegou o DIÁRIO DE S.PAULO. Novos chefes, novos rumos, grandes novos amigos. Amadureci. Mudei. E vivi a minha melhor fase profissional com a mudança. O que eu aprendi com os antigos era forte, era a grande base. Mas, os meninos novos me trouxeram o olhar moderno, irreversível da realidade virtual. Não importa a forma e a época. Percebi que essa "casa" sempre funcionou como uma grande família. Aqui, quase sempre, as reprimendas vêm do coração, para que o erro sirva de lição. Aqui, os colegas sempre vibraram pelo teu sucesso e o ego nunca foi tão grande quanto o trabalho bem feito. É o que eu vi. Ou pelo menos o que eu precisava ver. Queria poder voltar muitos anos e abraçar um por um e agradecer por fazer parte da minha vida - afinal de contas, passei 1/3 dela dentro dessa grande engrenagem.

Agora, 13 anos depois, o Plínio do DIÁRIO, adolescente, quer se rebelar um pouco. Vou fugir de casa. Mas, deixei meus pais avisados. O DIÁRIO foi o "chão que me consagrou". "Foi meu herói e meu bandido". E é por isso que deixo esse lugar cheio de saudade. Mas, com a alegria de ver pessoas de caráter, de fibra, generosas, amigos gigantes, parceiros de verdade, honrando toda essa história. Me sinto orgulhoso de ter feito parte de tantos times maravilhosos que se formaram aqui. Preciso ir, mas, não me peçam para fechar a porta! Valeu demais...

26/02/2010
Plínio Delphino"